NOTAS SOBRE O CAMPO COMUNICACIONAL
Muniz Sodré
Como agregar-nos ao empenho de dinamização do campo acadêmico da Comunicação? Como tomar distância crítica da pura e simples preocupação – marcante nos cursos de graduação latino-americanos --- com a formação de mão-de-obra especializada para o mercado profissional?
Nas três últimas décadas do século vinte, os melhores momentos das atividades teóricas no interior deste campo, tanto na Europa como nas Américas, têm girado em torno das relações entre os discursos sociais e o poder; da reinterpretação sociológica, antropológica e semiológica das práticas comunicacionais e, mais recentemente; da recepção como objeto privilegiado para a pesquisa empírica. Os piores momentos, embora eventualmente frutíferos para agências de publicidade, jornais e estrategistas de consumo, têm a ver com o sociologismo funcionalista, ancorado no mecanicismo dos modelos industrialistas do processo comunicacional.
Em ambos os casos, permanece indistinto o objeto teórico da Comunicação, referente constante, mas particularmente vago, em meio à proliferação dos discursos de uma ideologia comunicacional com acentuação futurista sobre as promessas da última grande utopia do capital – a tecnologia como manifestação universal do progresso. Vale lembrar a advertência de Durkheim: "Toda ciência que trata do futuro não tem objeto".
Consideramos, no entanto que, se há hoje uma posição reflexiva sobre a vida social com um objeto muito discernível, é a da Comunicação. É certo que o comportamento indisciplinar dos estudos comunicacionais – resultante dessa incômoda condição de estar espremida entre as grandes disciplinas do pensamento social e uma multiplicidade de práticas sócio-culturais atuantes – costuma lançar uma sombra sobre o objeto. Também certo é que a ilusão futurista, frequentemente presente nos supostos juízos críticos, dá margem a uma confusão entre doutrinas de acompanhamento técnico (em geral, propagandisticas) e a teoria.
No entanto, apesar dos ritmos cada vez mais velozes e futuristicamente obsessivos de hoje, pode-se fazer contato com algo que dure na contemporaneidade. Nesta duração, torna-se claro o objeto comunicacional: a vinculação entre o eu e o outro, logo, a apreensão do ser-em-comum, seja considerado do ponto de vista do individuo, seja do coletividade. Evidentemente, o objeto inclui as tensões constitutivas do comum, em qualquer nível. O "eu" e o "outro" não são entidades prontas e acabadas, a serem conectadas por um nexo atrativo. Apreender cognitivamente o si-mesmo, compreender a dinâmica identitária – portanto, vínculo entre si e si mesmo, mediado pela transcendência do Outro – está no cerne do problema comunicacional.
Dentro do campo filosófico, a questão do vínculo é a mesma que Kant denomina de "ação recíproca" ou "comércio", ao perguntar-se sobre como é possivel que "várias substâncias estejam em comércio mútuo e pertençam por este meio a esse todo único que se chama o mundo?" (In Da forma e dos princípios do mundo sensível e do mundo inteligível, 1770)
Sua resposta apela para o terceira das funções lógicas a priori em todo entendimento ou em todo julgamento possível (categorias, desde Aristóteles): a relação, que implica inerência e subsistência, causalidade e dependência, comunidade (ação recíproca entre agente e paciente). A comunidade, diz Kant, é "a causalidade de uma substância na determinação das outras, em toda reciprocidade".
Em termos da habitação humana num território, a noção kantiana de comunidade pode ser invocada para referir-se à possibilidade que tem o individuo de pôr-se em disponibilidade para algo em comum, concretamente para a troca numa relação geral de cada um com todos os outros. É o topos originário da diferenciação e da aproximação – e é, por outro lado, a questão subsumida na idéia de comunicação.
Em latim, as palavra communitas, communio e communis (cum é o que liga ou reúne; munus é cargo ou serviço que se presta a outro) referem-se à idéia de pôr uma tarefa em comum, ou seja, dispô-la como possibilidade de realização a mais de um, o que implica o coletivo (koinos, koinonia, em grego), oposto a particular. O ser-em-comum da comunidade é a partilha de uma realização, e não a comunidade de uma substância. Quer dizer, não se define como um estar-junto num território, numa relação de consangüinidade, numa religião, mas como um compartilhamento ou uma troca.
Isto vale frisar, porque se sabe o que aconteceu ao termo, depois de elevado a categoria sociológica por Tönnies: converteu-se pós-românticamente numa espécie de ícone de um passado cuja perda se lamenta em vista da desestruturação morfológica das relações sociais e da atomização dos indivíduos nos grandes centros urbanos. Passou, assim, da idéia do ser-em-comum como um topos dinâmico de realização para a noção de um ser substancial pensado como uma identidade (coletividade, agrupamento) colocada num lugar determinado.
O conceito de comunicação aponta para a movimentação concreta de toda comunidade. Evidencia que se trata de pôr em comum as diferenças práticas na dinâmica de realização do real. Isto está implícito, desde a origem, na palavra communicatio (do latim clássico, ciceroniano), que inclui os mesmos cum e munus de communitas e significava propriamente societas ou sociedade abordada pelo ângulo comunitário da atração, comércio ou vinculação entre humanos, deuses e humanos, vivos e mortos. A expressão dies communicarius prescrevia em Roma a ritualização desse laço.
O problema já comparecera, antes mesmo da origem da palavra, na comunidade grega (a Polis), com a invenção da Retórica, esta técnica de discurso que constitui uma apropriação política (dialógica, persuasiva, democrática) da questão do vínculo. Apropriações anteriores (na doutrina de Empédocles, por exemplo, com a idéia de phylia) davam-se no interior de uma visão cosmológica do mundo. Depois, com Platão, a questão aparece na forma da relação dialogal – a "boa retórica" platônica --, filosoficamente exigida pelo desvelamento da verdade.
Mas a palavra comunicação evidencia também que se trata de problematizar a questão teórica do ser-em-comum. São de fato vários os modos e os níveis em que essa questão pode ser apropriada pela reflexão. Na História dos sistemas de pensamento, diversos autores suscitam-na dentro do campo estrito da filosofia, sem deverem entretanto ser chamados de filósofos da comunicação. Platão e Aristóteles são básicos, na Antiguidade. Husserl, Scheler, Heidegger, Habermas, Apel são exemplos modernos particularmente marcantes.
Socialmente, a questão ganha vulto e importância extraordinárias desde a segunda metade do século vinte, com a crescente presença hegemônica da informação na estruturação das representações e ações sociais. Primeiro, a questão aparece como sub-tema das disciplinas do pensamento social sistematizado no século dezenove – sociologia, psicologia, antropologia.
Na chamada communication research, de que foram pioneiros norte-americanos como Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson, Harold Laswell, Charles Osgood, Elihu Katz e outros, a questão comunicacional era tematizada principalmente pela sociologia. O canadense Marshall McLuhan, que a popularizou a partir do anos sessenta, operava no quadro de uma teoria da cultura.
Depois, agora, a questão encaminha-se progressivamente para uma posição de autonomia relativa em face das disciplinas sociais e humanas já consolidadas e também por demais ligadas à análise dos clássicos sistemas centrais de ação histórica, como o capitalismo, o Estado, a religião.
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