A Insustentável Leviandade do Ser

Henrique Antoun

Este ano completou-se 100 anos da morte de Nietzsche, um filósofo que se dizia intempestivo. Embora um dos significados dessa palavra seja inatual não se poderia dizer que Nietzsche se encontre ausente de nossa atualidade. Mas esta presença tem uma forma bastante inusitada, longe dos muros das academias. Uma rapida pesquisa na Internet com a palavra Nietzsche nos traz 71 resultados se usarmos o Copernic e 2814 resultados se usarmos o Web Ferret. Podemos encontrá-lo exercendo grande influência no ativismo político de movimentos como o DAN (Direct Action Network) - que foi um dos principais organizadores das manifestações em Seattle contra a OMC -; ou então no pensamento dos hackers ligados ao grupo cDc (cult of Dead cow) criadores do temido Back Orifice. Na newslist capitaneada pela revista 2600, principal fórum de discussão dos hackers, ele tem presença constante. O mesmo se repete tanto na lista de discussão sobre o hacktivismo, quanto nas do movimento de software de domínio público; sobretudo na comunidade que cria programas gratuitos para troca de arquivos, como o Napster e o Gnutella. Como se não bastasse, o grande jogador de basquete Shaquille O'Neal - principal motor da afiada máquina do Lakers - em uma recente entrevista declarou que considera Nietzsche sua alma gêmea.

Entretanto seria errôneo imaginar que a atualidade do filósofo contradiga sua pretensão de intempestividade. Pois ele soube como ninguém resistir aos apelos que sua atualidade fazia sem cessar para entregar-se ao seu curso, ao ser convidado a escolher entre as opções trazidas ao cotidiano pela sociedade européia do século XIX. Soube romper com Wagner quando este pretendeu impor-lhe a proibição de cultivar a amizade com Paul Rée, porque este era judeu. Soube recusar o ufanismo imperialista alemão e a realpolitik do Bismarckismo que eram a moeda corrente entre os bons alemães. Soube repelir o moralismo ressentido, travestido de anarquia, que pensamentos como o de Dürhing e Feuerbach exprimiam. Soube criticar a ciência moderna por sua triste religiosidade e declarar aos cientistas que eles não eram mais do que sacerdotes crucificando a vida em seus laboratórios. Soube denunciar o anti-semitismo como modo covarde do ressentimento tentar gerar agitação popular. Em suma, soube sempre recusar as estreitas escolhas, aconselhadas pelo bom senso e o medo, que a sua atualidade lhe oferecia.

Também nossa atualidade nos oferece um torpe leque de escolhas para apimentar o aborrecimento do dia à dia. Precisamos escolher entre a ferocidade da modernidade e a da miséria, entre a soberania da ONU e a de Saddam Hussein, entre a prepotência da OTAN e a da Sérvia, entre a boçalidade do assaltante e a da polícia; enquanto assistimos ao desfilar sem fim do desalento dos que nunca mais terão um emprego, ao estarrecido amanhecer dos iraquianos fundidos aos escombros dos bombardeios, à fuga desesperada dos kosovares no fogo cruzado da Sérvia e da OTAN e ao aterrorizante espetáculo da histeria dos reféns fabricados pelas empresas para servir de escudo vivo na proteção de seu dinheiro. Enquanto tudo isso pipoca sem cessar colorindo nossa digestão, caminhamos tropeçando pelas ruas nos corpos estirados do ser aí habitando o desamparo dos bancos e das calçadas, errando sem fim por terra, mar e ar, suportando o eterno exílio da vida no Império global. Até que uma intempestiva Seattle irrompa súbita - transformando o desamparo em festa, a errância em comício e o exílio em luta - para nos lembrar, em seu sopro de vida, a estupidez que essas escolhas encerram.

Nada mais previsível do que a estupidez. Podemos sempre contar com sua presença em nossas previsões. O próprio antecipável é a forma pura da estupidez e é a ele que prestamos conta em toda história dos acontecimentos. A estupidez é o antecipável de todo acontecimento, a universal verdade que dele se encarrega per omnia secula seculorum. Presa ao coração da atualidade, como uma coroa de espinhos, ela nos fala com ares de douta sapiência da canga do medo ao novo - hoje passeando pimpão o vistoso traje do risco - que trazemos firmemente atada aos ombros da conveniência cotidiana. Se na modernidade o futuro batia às nossas portas e precisávamos estar preparados para enfrentar os seus desafios; na contemporaneidade o futuro já começou - nós o trazemos em nossos gens, em nossos vícios e em nossas dívidas - e precisamos conjurar a fatalidade nele anunciada nos programas que vamos confeccionar para reger nossas práticas. Pois a genética nos ensinou que a evolução é conservadora, decidida no consenso bilionário da relação dos gens; o desenvolvimento é avaro, decidido na auto-sustentabilidade da consumação das energias finitas; e a sabedoria é mesquinha, decidida na seleção da informação adequada que eliminará o excesso de dados do fato atual.

O marketing em sua elaboração das formas de garantia do sucesso é o grande ditame moral da atitude contemporânea. Ele nos aconselha a escolha de procedimentos de baixo risco para integrar a grade de nossa programação diária no cálculo de nossos gestos. A fama deixou de ser o brilho efêmero do que se distingue na ousadia de um ato, para tornar-se o sucesso de um programa de ação medido pelo ilimitado de sua conservação na continuidade do tempo. Dominado por esta forma, o ser tornou-se leviano em nossa atualidade. Pois hoje não nos confrontamos mais com a verdade ou falsidade da existência, como na antiguidade; ou com a autenticidade e inautenticidade da existência, como na modernidade. Agora somos convidados a escolher entre o excesso e o sucesso da existência. Devemos decidir consensualmente a eliminação do risco, trazido por todos esses seres aí sem teto, sem terra, sem proteína, sem capital, sem crédito, sem saúde, sem emprego, sem raça, sem língua, sem rumo e sem pátria que não podem ser absorvidos pela lógica da antecipação do mundo globalizado.

Compreender o pensamento de Nietzsche nos leva a olhar nossa atualidade sob uma nova luz. Oscilando entre a tentação da imersão virtual e a sofreguidão da correria atual o intempestivo lança o seu basta aos infames convites da atualidade, enfrentando-se com as conveniências fatais de seu tempo. As novas práticas de auto organização, impulsionadas pela realidade da Internet, dominam as manifestações políticas atuais, onde os grupos de afinidades afetivas, a respiração iogue e o teatro carnavalesco de rua se irmanam ao pensamento deste filósofo que nos ensinou a ser dinamite para o conformismo cotidiano de qualquer época.

Galeria de Autores