COMUNICAÇÃO E TRANSCENDÊNCIA: O DESAFIO DA CULTURA ATUAL, ENTRE O MODERNO E O CONTEMPORÂNEO.

MARCIO TAVARES D’ AMARAL

 

O desenvolvimento do projeto "Mídia e Valor : a ética do pensamento e a provocação tecnológica na cultura comunicacional contemporânea", apoiado pelo CNPq entre agosto de 1998 e julho de 2000, levantou uma questão que, de aparência secundária a princípio, tornou-se um divisor de águas para os pesquisadores do Laboratório de História dos Sistemas de Pensamento – programa IDEA -, da Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ. Poderia parecer um problema terminológico; foi-se ver, era uma questão essencial. Prendia-se ao próprio título do projeto, que, naturalmente, pretendia expressar da melhor forma possível seus pressupostos; tinha a ver com a palavra "comunicacional", adjetivando a cultura contemporânea. Nessa posição, esta palavra deveria expressar a própria qualidade da nossa cultura; mas à medida em que a investigação avançava e a característica profundamente informacional – num sentido que envolve também o marketing e o consumo – da cultura atual ia-se acentuando, começou a parecer a alguns de nós pouco evidente que se estivesse falando da mesma coisa ao dizer "comunicação" e "informação". Chegou-se a cogitar de que tratava-se, ontológicamente falando, de realidades opostas, uma – a comunicação – ligada à linguagem do sentido, referida ao real a partir de um certo jogo de fundamentos, e envolvida com a verdade (fosse lá o que isto agora quisesse significar), pondo em jogo sujeitos; outra – a informação – lidando com a produção de imagens que são sinais, numa ordem virtual (sem referência a um real "real"), autoreferida a tal ponto que sequer é pensável a instância dos fundamentos, pondo em jogo simulações, simulacros e seduções dos sentidos (exclusão da "verdade") que não têm propriamente a ver com sujeitos, mas com agenciamentos, dispositivos e maquinações.

A caracterização extremada que assim se fez, de aparência excludente e quase maniqueísta, não era para ser levada a sério, mas apontava para um problema implícito no projeto anterior, e que agora era necessário explicitar : aquilo que se passa entre comunicar – pôr em comum o sentido – e informar – assinalar a disponibilidade de sinais – afeta o projeto de uma (ou várias, que fosse) "teorias da comunicação", de uma "ciência da comunicação". Surgiu a hipótese, esta para ser levada a sério, de que tal projeto estaria obsoleto na cultura informacional contemporânea, e que o lugar teórico dessa obsolescência seria a "falência" da série clássico-moderna "fundamentos-referência-real-sentido-verdade’. A coesão ontológica desta série foi experimentada como sendo a noção, melhor: a experiência da transcendência, entendida como movimento do homem na direção de mais que homem, diferente de homem – a experiência radical da alteridade, constitutiva da própria possibilidade de haver sujeito (ou que outro nome se dê, não é importante). O avassalador apelo à imanência que caracteriza o informacional-virtual seria o sintoma da quebra dessa força de coesão (a transcendência), levando consigo a desvalia da série dos fundamentos à verdade. Em lugar dela (não no mesmo lugar) uma série "produção-processamento-virtualidade-sinal-simulação (imagem)"teria vindo a ser experimentada. Nessa conjuntura, a proposição de uma "teoria da comunicação" não faria (sem trocadilho) sentido. – O problema, formulado assim, pareceu suficientemente instigante e essencial para converter-se em objeto de pesquisa.

Mas havia mais. A constatação do que passamos a chamar de "mergulho na imanência"- sintoma de uma quebra – não parece indicar uma direção soberana. Na sua contramão, anti-sintoma, por assim dizer, constatamos o surgimento de um pensamento de tipo "religioso" (tome-se a palavra no sentido estrito do religare) que vai desde noções como "holismo", "padrão que une", "estruturas subjacentes" até o uso reiterado que um cientista da complexidade como Henry Atlan faz do pensamento judaico, ou a postulação, por um pesquisador da importância de Jean-Pierre Dupuis, da noção de "meta-nível inviolado" para dar conta dos sistemas dinâmicos. A necessidade de afirmar, contra tais ressurgências da transcendência, um materialismo científico estrito – base do neo-darwinismo e do neo-cognitivismo que afetam hoje os estudos de comunicação, entre outros -, confirmou para alguns de nós a importância do tema, a fecundidade do par "comunicação-transcendência" (com tudo que aí está elipticamente envolvido) e a utilidade, senão urgência, de introduzir a "religião" como um dos sistemas de pensamento que, ao lado dos que nos eram mais familiares – a filosofia, a ciência e a história-, seria chamado a dar conta da conjuntura existencial e teórica da nossa Atualidade.

Deste modo, a linha de pesquisa ora em andamento é uma retomada do segundo objetivo geral do projeto anterior ("estabelecer novas estruturas de experimentação e diagnóstico e determinar em que medida estas interagem com as redes de individuação, informação e virtualização características da cultura comunicacional contemporânea, condicionando o que podem ser hoje homem, mundo, história e valor"), pondo em questão o adjetivo "comunicacional", apontando para a dimensão ambiguamente ausente da transcendência na nossa cultura e introduzindo a inquietação religiosa no campo, antes a ela interditado, da pesquisa em comunicação.

Este é o objeto amplo da presente investigação.

 

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