REALIDADE VIRTUAL E MASCARAMENTO IDENTITARIO
Raquel Paiva
A cena inicial deste roteiro, na verdade, é composta praticamente por duas, que se sobrepõem, passando rapidamente de uma para a outra, tentando imprimir assim um tempo marcado pela analogia:
Tempo 1:
Em primeiro plano, surge Venezia, na Itália, uma cidade anfíbia, ambígua em seu quotidiano, com uma vida dividida entre a terra e o mar. Esse ambiente propiciou o terreno próprio para o uso e desenvolvimento da máscara como esconderijo da identidade.
Aí se ultrapassa por completo o uso da máscara fixa ou mesmo ritualística. Se hoje a máscara veneziana sobrevive como mero souvenir, atendendo ao mercado turístico, também é preciso pontuar sua existência através dos tempos como instrumento indispensável no carnaval. E ainda ressaltar o lugar que alcançou graças à comedia dell’arte, onde se consolidaram tipos identitários que, uma vez reinterpretados em sua diversidade, permitem reconhecer muitos dos habitantes locais e seus hábitos .
Entretanto, a câmera desloca-se, focando principalmente o período em que o uso da máscara assumiu em Venezia uma característica quotidiana e um uso disseminado. Esse uso marcou definitivamente a cidade, sendo possível observar seus elementos nas fachadas de casas e palácios, mas também até numa paróquia religiosa que faz a sagração a uma máscara, a Paróquia de San Pantalon — precisamente entre Santa Margherita e Frari.
Com seus canais e estreitas vielas, Venezia traz em sua história o registro do período da proibição do uso da máscara. Como em sua sua lei de 1268, quando os mascarados são proibidos de jogar sacos perfumados, em forma de ovo, com essência de rosas para as donzelas que se postavam à sua espera por certo, nas janelas de suas casas. Mas esta não foi a única expressão legal de proibição. Em 1339, fica interditado o travestimento por "modum nhonestum " (maneira desonesta), ao lado de muitas outras proibições, como o andar mascarado nas igrejas e nos monastérios, principalmente nos femininos.
Claro, pode-se registrar ainda o período do Renascimento, em que não se concebia festa sem o uso da máscara, especialmente na Itália e na França. E finalmente, a moda da máscara veneziana alcança um verdadeiro delírio no século XVII, quando passa a ser usada por todos ( até mesmo pelos mendigos nas ruas) a qualquer hora do dia e da noite e em todos os lugares.
Venezia possuia de fato uma vida fértil em termos de mascaramento que ultrapassa a corte no Renascimento, ou mesmo o carnaval, sem esquecer da Comédia dell’Arte, que consagrou tipos bastante marcados, fixos mesmo, (que em sua grande maioria já circulavam pelas estreitas ruas da cidade), como Arlechino, Pulcinella, Gnaga e Bauta, com seu toque ligeiramente homossexual, além, é certo, do tipo característico, mais reconhecido, que é o velho e ávaro mercador veneziano, Pantaleone.
Tempo 2:
É noite, ou dia, pouco importa, o que conta mesmo é a disponibilidade , o intervalo de tempo livre, do indivíduo típico das grandes cidades que, deixando um pouco de lado o seu acúmulo de funções, pode sentar-se e ligar sua máquina.
Distante dos papéis que rigorosamente tem que desenvolver e com reduzida margem de desvios, ele, agora sozinho, acessa um grupo virtual. Depois de passar pelos portões de reconhecimento com seus nomes pré-fabricados (as suas várias "passwords") — suas múltiplas identidades — finalmente encontra seus pares, que , como ele, observam com rigor as mesmas regras, como por exemplo, não usar o próprio nome, aquela máscara fixa do quotidiano pós-moderno . Começam a trocar frases diversas, que podem ir desde uma área específica de interesse (coincidindo com as do mundo real) e também simples trivialidades, daquelas que ninguém mais tem coragem de falar porque ninquém mais tem tempo e vontade de ouvir — imagine o quão de "surrealista" é ouvir, nos dias atuais, a descrição minuciosa e colorida dos fatos do quotidiano alheio ... algo como não encontrar a geléia de morango favorita no mercado ao lado, etc.
Mas afinal existem pontos de convergência entre a antiga Venezia, cidade italiana de fascínio mundial, e uma cena quase banal para cinco por cento da população mundial que manipulam as novidades tecnológicas da informática? O primeiro itém que salta aos olhos aponta na direção do uso da máscara — a máscara identitária como objeto e procedimento presente em ambas as sociedades. A máscara como meio de expressão e não como forma de ocultamento. O segundo ponto refere-se, a despeito do número reduzido de usuários, ao avanço tecnológico do mundo atual. Um momento que pode ser considerado mesmo o ápice da produção técnica, o sublime momento em que o indivíduo cria um outro mundo, aquele que se convencionou chamar de realidade virtual.
Como terceiro ponto, impõe-se a análise da utilização do termo " comunidade virtual" para este instante relacional das identidades mascaradas. É necessário vasculhar o porquê da definição e se de fato é apropriada a nomeação.
A máscara.
Refletir sobre a máscara significa avançar em direção ao sujeito e às mediações de que se lança mão na relação com os outros e com o mundo. No tempo 1, na Venezia antiga, o fundamento da máscara é a opção por uma forma identitária e — porque não? — um jogo de possibilidades. Muitas vezes, diante do uso excessivo, ela cola-se ao rosto real de forma substitutiva, ou seja, a máscara assume o lugar daquele que fala e age. É ela então quem determina as ações.
O uso do mascaramento no mundo virtual (Tempo 2) tem um sentido que pode até se aproximar dessa mesma suposição. Entretanto, ao entrar, através da tela do computador num outro mundo, o sujeito suspende, produz um intervalo na sua identidade real. A nova identidade — sugerida pela adoção da máscara — sente-se liberta para atuar, distante do esmagamento das convenções sociais. À impressão libertadora soma-se uma produção narrativa, por vezes sedutora, que preenche o lugar da imaginação e da inventividade, excluídas do quotidiano.
Por outro lado, a oportunidade de escapar temporariamente ao quotidiano real pode implicar uma disparidade a uma vivência real e integrada do dia-a-dia, com seus afazeres e com o território em que se vive. Trafegar pelos dias, suportando o desenrolar das horas com seus compromissos, pode significar uma não vinculação existencial com o real e sua história. Nesse sentido, a possibilidade virtual é capaz de assumir um valor substitutivo tão forte, a ponto de transformar-se de intervalo em subjetividade permanente. O interesse centra-se, então, cada vez mais no mundo, na identidade e nas relações marcadas principalmente pela assepsia — libertas das fricções produzidas pelos contatos reais.
É preciso entender que o mundo globalizado, ao produzir proximidades virtuais (mas também reais), também fez aflorar uma certa gradação de fricções, das quais se pretende, a todo custo, fugir. Diante dos contatos reais, produzidos pelo fluxo de migrações, o estranhamento é inevitável, e tendencialmente surge o apego a costumes e hábitos agregadores e diferenciadores, que também podem ser entendidos como o esforço de fuga à homogeneização e padronização, tidas até então como inevitáveis. Os contatos virtuais — exatamente por serem assépticos — realizam-se sofregamente; um reflexo da busca platônica do encontro consigo mesmo, corporificada pela idéia da alma gêmea. Esse esforço para encontrar a sua contraparte, que supostamente vaga no cibermundo, concretiza-se apenas por meio da narrativa. Um discurso que pode trafegar do trivial ao sexual (como no setting psicanalítico).
A "comunidade virtual".
A investigação dos encontros entre os sujeitos no cibermundo impôs a necessidade de tradução desse fluxo — permanente ou não — pelo que se convencionou chamar de "comunidade virtual". Entretanto, a idéia desse coletivo que se reune para trocar informações, experiências, fragmentos de vida e até objetivos comuns, carece de esclarecimentos básicos. Há os contatos fortuitos, mas há também aqueles que se diferenciam exatamente por sua preocupação em formar um grupo e se auto-intitulam "comunidade virtual".
Inicialmente, é preciso recordar-se que as definições da Escola de Chicago, na década de 50 (menos preocupada com a visão da solidariedade a que está vinculada a idéia atual de comunidade), concentram-se prioritariamente na visão da sobrevivência ecológica, desenvolvendo estudos em torno do que convencionou designar por "folk community" em oposição ao "urban society ", tendo dentre os autores mais destacados o americano Robert Redfield, responsável por uma série de títulos, dentre os quais se destaca "The Primitive World and its Transformation", de 53, sempre na linha evolucionista da idéia de comunidade.
Estes pressupostos, nascidos na América do Norte, desembocaram numa linha de pesquisas, disseminada e vigente ainda hoje, em direção à compreensão de comunidade como estudo de pequenos grupos, ou seja, sistemas sociais normalmente portadores de "traços típicos" , algo parecido com as comunidades tradicionais.
Definir esse grupo, disperso espacialmente, mas espiritualmente espiritualmente por comunidade, foi algo bastante fácil de ser forjado e, aparentemente uma questão sobre a qual não há muito o que se discutir, já que, como definiram os teóricos americanos, trata-se de um grupamento específico, etc..... Realmente porque, tomando-se por base o seu assentamento, mesmo dispersa físicamente e diferindo da comunidade tradicional, guarda outras semelhanças bastante inquietantes. A comunidade virtual, tal qual a tradicional, impõe a si mesmo aparatos fiscalizadores e normatizadores responsável pelo controle sobre os seus membros. E ainda, um conjunto de regras, que funciona como uma verdadeira constituição, contendo parágrafos e uma enormidade de artigos.
É certo que o controle na comunidade tradicional dava-se de forma direta e sobre um conjunto de atitudes. No caso específico da comunidade virtual, as regras de conduta incidem apenas sobre a fala. Uma outra característica comum é a obrigatoriedade de uma permanente frequência relacional. Na comunidade tradicional é uma exigência até compreensível, uma vez que necessáriamente habitava-se um espaço comum. Entretanto, faz-se quase incompreensível no caso específico da virtual, por estar esta última inserida num mundo em que o sujeito encontra-se atrelado a várias atividades e compromissos das mais diversas ordens.
Este assemelhamento, sob certos aspectos, com a comunidade tradicional, ao invés de facilitar a compreensão, lhe imprime um quê de dejà vu, tendendo ao anacrônico, ao já ultrapassado. Isso porque, trabalhar com a idéia de comunidade atualmente e mesmo operacionalizá-la é indispensável à ultrapassagem da sua visão nostálgica, além de um certo grau de incompreensão que circunda atualmente o termo. Para comprovar, basta notar que atualmente tudo tem se transformado em comunidade, sendo necessário apenas existir um grupo com algumas pessoas fazendo ou pensando a mesma coisa.
Outra maneira simplista de explicar sua existência é apenas a de relacioná-la à idéia de espacialidade, por exemplo, a comunidade do bairro da Rocinha. Pode-se também recorrer a uma certa e forte dose de tradicionalismo, como por exemplo a comunidade da Mangueira, mas também à comunidade global — aquela e desde a década de 80 almejada desde a década passada pelos países mais desenvolvidos do mundo, pautada basicamente pela implementação de aparatos coercitivos — diante da constatação do aumento da violência e do crescente número de excluídos.
Mas comunidade pode ser ainda tanta coisa, como a comunidade universitária ou científica, que sempre parece ter mais relação com as antigas corporações de ofício da Idade Média. Também a comunidade dos funkeiros do lugar X, a comunidade cristã, negra, evangélica, dos alcólatras, dos comilões, etc Enfim, comunidades das mais variadas vertentes e que apenas reforçam a premência de se analisar o que a constitui com função no mundo atual. A esta altura é inegavelmente pouco satisfatório apenas concordar com o entendimento ao mais conhecido teórico do virtual, o sociólogo francês Pierre Levy, e endossado por meio mundo da intelectualidade mundial, de que "a comunidade atual é a comunidade virtual".
O desenvolvimento tecnológico.
Neste ponto, vale a pena destacar a importância do trabalho teórico desenvolvido pelo filósofo italiano, Gianni Vattimo ao propor sua hermenêutica niilista, ou seja, uma hermenêutica ligada à idéia de reinterpretação, ou seja, à urgência de se olhar de novo.–––– Como se fosse pela primeira vez, de todos os lados, e, principalmente, de uma maneira diferente da qual a civilizacão ocidental tem historicamente olhado. Este dispositivo, aparentemente simples, pode permitir vislumbrar saídas para as coisas que criamos. Dentre eles, o mundo virtual. Trata–se principalmente de superar o fascínio que ele exerce, tornando-o operativo, facilitador, talvez até mesmo como um simples instrumento.
Para implementação da discussão em torno do desenvolvimento tecnológico, é oportuno seguir o que propõe o filósofo alemão Heidegger com a idéia de Ge-Stell, um conceito largamente utilizado também por Vattimo ao pretender traçar uma ontologia da atualidade. Por Ge-Stell, que significa armação, ambos entenderam armação técnica. Vattimo a define como a concretização da metafísica, que teve início com o pensamento de Platão.
Finalmente e sinteticamente, pode-se dizer que a idéia cartesiana do indivíduo, a crença na racionalidade, venceram e chegaram ao seu ponto máximo , o da sua própria superação, que é a produção de um NOVO MUNDO — nada menos que uma realidade virtual. Nenhuma civilização, por maiores que tenham sido seus intentos, havia conseguido essa vitória técnica, porque ainda havia, em diferentes medidas, uma ou outra dose de humanismo. E, principalmente porque o desenvolvimento tecnológico não havia permitido a criação de um fluxo tão intenso, tão absurdamente veloz, que pudesse até mesmo deixar de ser visto e, consequentemente, estabelecer uma conexão com o real.
É um mundo em que tudo pode ser virtualizado, produzido pela "armação técnica", em que, organizando–se os polígonos, é capaz gerar toda e qualquer sorte de objetos. É verdadeiramente, indubitavelmente, a glórificação da metafísica, poque não se trata mais da construção de um móvel, uma casa ou uma mesa, mas sim a produção de um mundo completo, onde os objetos conseguem ser representados ao nível máximo de sua perfeição. Na verdade, são outros objetos, mais reais do que os reais. É mesmo o que preconizava o filósofo francês, Jean Baudrillard, no final da década de 80, quando se referia a geração de um mundo hiperreal.
Por outro lado, instrumentum é o aparelho ou o utensílio, ou seja, o instrumento de trabalho, o meio de transporte, o meio, em geral. A técnica passa por qualquer coisa que o homem manipula, da qual se serve na perspectiva de uma utilidade. Neste sentido, a representação instrumental da técnica, permite uma visão esclarecedora e um julgamento sobre a história da técnica até os nossos dias — como unidade, na totalidade de seu desenvolvimento. No horizonte da representação antropológica da técnica não há diferença entre a machadada e a comunicação via rede. Os dois são instrumentos, meios produzidos para fins determinados. ainda que um seja um utensílio primitivo e o outro um aparelho de complexidade extrema nada altera o seu caráter instrumental, isto é, técnico. Ambos têm em comum o caráter instrumental tomado de maneira operatória e abstrata.
Porém, o caráter instrumental não é suficiente para definir o que é próprio da técnica moderna e seus produtos. Primeiramente, recorrendo ao argumento etimológico, o termo técnico deriva do grego technikon e designa o que pertence à technè , que tem a mesma significação de epistemè , que quer dizer velar sobre uma coisa, compreeendê-la. Então, techné que dizer : "conhecer-se em qualquer coisa, mais precisamente no fato de produzir qualquer coisa". E, no sentido grego, techné significa mesmo conhecer-se no ato de produzir. Desta maneira, produzir não significa tanto fabricar, manipular, operar, mas fazer vir (manifestar) aquilo que não era dado como presente. Assim, technè não é um conceito do fazer, mas do saber, qualquer coisa que está posta no manifesto, acessível e disponível.
Heidegger já havia previsto que a técnica moderna está na supremacia do homem sobre a natureza, passando a ser uma manifestação calculável, onde a energia passa a ser captada, transformada, distribuída e principalmente armazenada (vide sua conhecida análise sobre a hidrelétrica), não havendo mais a perda por indeterminação. Entretanto, a questão é que, apesar de Heidegger ter desenhado com tamanha clareza o império da técnica, não formulou respostas ou possíveis saídas, nem o que ocorreria após essa época.
O certo é que se há um depois, não é um depois da época da técnica, mas de uma estandardização do Ocidente. E se o próprio Heidegger não forneceu saídas, foi capaz de sugerir algumas possibilidades, já que em algumas vezes recorre a uma passagem de Hölderlin que diz " onde está operigo, cresce também aquilo que salva". É nesta composição que surge o pensamento do filósofo italiano Gianni Vattimo ao sugerir, reinterpretando o pensamento heideggeriano, que talvez se possa trilhar o caminho que existe de transitividade na Ge-Stell.
A partir daí, então, pode-se imaginar que, finalizado o fim do atual delírio da utilização do mundo virtual, possa ser possível discutir posturas políticas sérias quanto à utilização do instrumento de comunicação via rede, simplesmente e com todas as suas potencialidades técnicas, em especial a sua capacidade de interatividade . Mais que um sonho, trata-se de uma postura política supor o seu uso como instrumentos propiciadores, até mesmo de nos fazer superar o maior desafio da época atual: o desejo de estetização do outro. E, finalmente, assumir a diversidade , a relação interpessoal, a solidariedade, os vínculos e o pertencimento como posturas indissociáveis na releitura necessária do comunitarismo.
Por meio deste pressuposto, é possível fazer um caminho em direção a expressões como "comunidades virtuais", compreendendo–se como sujeitos conectados. Do contrário, comunidade virtual não ultrapassa a simplória rede de computadores interligados, máquinas que se comunicam, nada mais.
A cena final poderia ser, quem sabe, a fusão das duas cenas iniciais, livres da unidade temporal. Máscara, a velha persona latina, poderia ganhar uma dimensão própria à pessoa humana. Ambas, a veneziana e a virtual, no presente, descortinariam uma sociedade que avança dia-a-dia tecnológicamente, mas que também pode ser capaz de reconhecer, respeitar, conviver e cuidar para a existência e permanência de todos os seus membros e de sua história— porque uma sociedade que não tem passado, e só tem o presente (como acreditam os virtualistas), também não tem possibilidade de compor um futuro.
Referência bibliográfica:
1. O Espírito comum. Raquel Paiva, Vozes, 1998.
2. Oltre l’interpretazione . Gianni Vattimo. LaterzaRoma, 1994
3. Lingua de tradição e língua técnica. Martin Heidegger. Lisboa.Passagens. 1970
4. La realtá del virtuale . Jadre Jacobelli, Laterza, 1998, Roma.
5. Teorias da Etnicidade. Philippe Poutignat e Jocelyne Streiff-Fenart. São Paulo. Unesp. 1998
Entretanto, é necessário retirar a máscara da fascinação, que sempre se avizinha quando o propósito é a análise em torno da temática da evolução técnica. A fascinação, aqui não se presta a coisa alguma, já que não permite mais que o olhar a uma certa distância — é justamente aí que reside o seu poder : tal como as máscaras venezianas, que permitiam um deslocar-se pelo rosto, permitindo apenas se entrever partes, nunca o todo.
Além do que, o maravilhamento que tem motivado toda uma linha de teóricos sobre as inovações do novo mundo tem sido responsável não apenas por seus discursos sobre o mundo virtual. Este estupefamento tem sido o reponsável também pela crença que reconhece o instante atual, a virtualidade como opção de mundo, até mesmo em oposição ao real. Por outro lado, o discurso pura e simplesmente técnico, que converte o virtual em postura tecnológica indispensável, tem uma significação redutora, porque ainda está no universo da metafísica, que absolutmente não oferece mais fundamentações para uma análise da atualidade.
E, o que é deprimente, de fato, é que têm gerado um total alheamento às questões do território real, à necessidade da produção de uma ontologia da atualidade, capaz de preocupar-se com o avassalador e crescente contingente de excluídos, não apenas do acesso tecnológico, mas e principalmente de todo e qualquer suporte básico de sobrevivência.
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