Paixões Virtuais: Corpo, presença e ausência
Beatriz Jaguaribe
Cidades. O flâneur transita a pé, de carro, metrô. Perpassa ruas, contempla edifícios, olha pessoas. Senta num café, troca olhares e inicia um flerte com a vizinha da mesa ao lado. A cidade real de edificações, máquinas, pessoas.
O usuário da Internet aciona seu computador. Navega por sites, contempla imagens, lê mensagens. Entra num chat, troca codinomes com uma usuária e inicia um flerte. A cidade virtual de textos, imagens, pessoas.
O flâneur ocupa fisicamente um espaço e seu percurso pela cidade requer uma consumação de tempo. O usuário da Internet também se coloca num espaço-tempo. Mas seu diálogo virtual se realiza no não-espaço geográfico e numa simultaneidade de tempos alheios ao âmbito físico que seu corpo habita.
A ausência ou presença do corpo no intercâmbio comunicativo distila narrativas específicas de invenção do outro. Nas experiências do amor, essas invenções do outro são intensificadas pela expectativa da reciprocidade de afetos que invencionam o intercâmbio de representações de um indivíduo para o outro. Sobretudo, a narrativa amorosa requer uma invenção da subjetividade na sua feição intimista. Como a experiência do amor se constitui em diferentes registros comunicativos através da presença ou da ausência do corpo físico? Nesse indagação, busco discutir como as narrativas do amor se defrontam e experimentam novas modalidades discursivas ao se depararem com vários processos técnicos de comunicação. Narrativas do amor que implicam em processos de subjetivação no âmbito urbano mediado pelas novas técnicas.
Em plena comoção da cidade, na Paris transformada pelas obras urbanísticas do Barão de Haussmann, Baudelaire registrara a epifania das correspondências entre seres e coisas na pulsação fragmentária do moderno. Aliada à percepção da solidão na multidão, temos a possibilidade do encontro fugaz que estabelece, em pleno anonimato, a troca de olhares e a reciprocidade do amor "a primeira e última vista". Na vertigem da velocidade, o amor anda de bonde, trem, metrô. Os passajeiros encapsulados, naquilo que Richard Sennett denominou como sendo o silêncio do privado no espaço público, estabelecem as conexões fugazes do desejo amoroso na troca de olhares, em diálogos breves, no contato repentino que logo se dissolve quando o ser almejado se dispersa na multidão. Os transportes coletivos da cidade moderna vão tecer essa dualidade do anonimato e do desejo. A comunicação nunca é plena, é interceptada pela mudança de estações de trem, chegada de novos passajeiros, saída ou fuga do objeto do desejo. O que potencialmente pode vir a se estabelecer seja no bonde, no metrô, no trem ou até no traseunte que caminha entre a multidão é a imagem brevemente captada. Que essa experiência depois se concretize na troca concreta de diálogos e na progressiva familiariedade não é o ponto central dessa nova experiência do desejo amoroso. A novidade consiste justamente na captação efêmera daquele momento de troca num território hostil `a estabilização. No seus versos "A Une Passante" Baudelaire explicita a condição da fugacidade como armação propícia ao desejo : " Efêmera beldade.....Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!/Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste, / tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste! (1)
No fluxo de trânsito da cidade, o corpo é capturado em fragmentos, olhos que se cruzam, mãos que se tocam, pernas que se esbarram: "O bonde passa cheio de pernas:/pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. /Porém meus olhos./não perguntam nada." (2) No poema de Drummond, o desejo se perfila difuso no descompasso entre o coração ansioso que não entrevê reciprocidades e os olhos voyeurísticos que captam o erótico. São framentos corporais que, tais com os outdoors publicitários, atiçam o desejo na incompletude do fragmento. O moderno traz consigo não só o efêmero e o fragmentário, como também a possibilidade mais democrática do encontro de mundos diversos na fugacidade da ocupação breve do espaço público. Assim, Lima Barreto anota em seu Diário Intimo o episódio de sua troca de olhares com uma jovem passageira italiana no bonde. A moça o contempla com olhos prenhes de possibilidades amorosas e embora afastada pelos irmãos receosos deixa o escritor com a satisfação íntima de saber que " Com isso, eu adquiri uma certeza; embora mulato, os meus olhares podem interessar as damas e desconfiar os irmãos delas" (3) O nexo dessa comunicação no anonimato do transporte público é a cristalização da imagem do outro, da breve fala do outro, do toque sutil do outro numa suspensão de tempo. Aquele toque, olhar ou contato tornam-se únicos. A velocidade e o anonimato do transporte facilitam o devaneio romântico fantasioso que é atiçado por uma percepção sensorial e interiorizada por um repertório imaginativo interno. Os corpos estão presentes num breve instante. As lacunas do desconhecimento são preenchidas pela fantasia interna. Ao contrário da célebre figura do bolina que se aproveita do anonimato e do aperto da multidão para apossar-se do alheio enquanto objeto físico, a epifania do amor no transporte moderno é alcançada quando há a percepção de uma troca que, sendo real ou imaginária nunca chega, entretanto, a ser desdobrada. Existe a real presença dos corpos, mas essa presença é breve e cancelada pela fugacidade da desaparição. Em termos de gênero narrativo, esses encontros são como estilhaços de poemas que não compoem uma narrativa contínua, mas tal como os flashes da paisagem urbana entrevistas pelas vidraças do trem, convidam, na fugaz presença, a devaneios . Iluminam brevemente a banalidade do cotidiano e depois se diluiem no esquecimento ou se transformam na fantasia interna do contemplador.
O voyuerismo dessa comunicação analisada pela literatura sociológica de Simmel, Benjamin, Sennett, entre outros, está acoplada à natureza da mutabilidade do urbano e ao gênero narrativa da literatura intimista. São epifanias na medida em que possibilitam, no fluxo temporal, uma suspensão da própria temporalidade pelo olhar contemplativo que tece um fugaz momento de totalização. São voyeurísticas na medida em que a experiência do contato nunca é plenamente encenada, mas antes sugerida pelo narrador que apreende ao outro e a si mesmo nesse instante de breve intercâmbio amoroso.
Seja no século XIX com a experiência do anonimato na multidão e com a implementação de novos transportes urbanos, seja no século XX nas grandes metrópolis perpassadas por linhas de metrô, ônibus e trens, a experiência do amor a "primeira e última vista" sugere a articulação de introspectivas projeções íntimas no cenário despersonalizado da grande cidade. O espaço público do anonimato contrastando e alimentando a vivência intimista. Em todas essas ficções, dá-se aquilo que muitos acreditam ser a essência do urbano, ou seja: o encontro ou desencontro de estranhos. Esses estranhos são presenças cujas interioridades não são captadas exceto enquanto possibilidades de reciprocidades comunicativas logo desfeitas. Temos, portanto, corpos exalando sinais que são apreendidos e processados nos desdobramentos da fabricação romanesca do personagem que os contempla. Nada sabe o poeta Baudelaire sobre a pasante trajando negro que bordeia a multidão, nenhuma idéia tem Lima Barreto dos ânseios e das angústias de seu flerte italiano. Mais do que o toque físico, o que aqui predomina é o olhar e as especulações sobre as possibilidades de um intercâmbio que nunca será concretizado.
A fantasia amorosa opera no hiato da experiência enquanto uma fabricação virtual. A potencialização do virtual é um dos temas do romance magistral A invenção de Morel, ( 1940) do escritor argentino Bioy Casares. (4)
Em contraste com as epifanias da amorosidade na grande metrópole vistas anteriormente, o romance de Bioy Casares transcorre numa ilha deserta. Fugitivo da polícia e exilado na ilha deserta, o narrador protagonista de A invenção de Morel nos relata, em primeira pessoa sua estranha e paradoxal narrativa de amor. Nosso protagonista se encontra isolado na natureza entre ruínas de construções. Certo dia escuta vozes e vê pessoas. Temeroso de ser descoberto e entregue à polícia se refugia dos estranhos. Entre os personagens que observa se apaixona por uma bela mulher que, em determinadas horas do dia, contempla impavidamente o pôr do sol. Essa figura está sempre trajando a mesma roupa e com pequenas variações cumpre o ritual da contemplação do pôr do sol. O fugitivo jamais é visto pela bela desconhecida, nunca trocam palavras. Por trechos de conversas que escuta e pela sigilosa espionagem que lhe faz, nosso protagonista pouco a pouco acumula um mínimo de informações sobre a desconhecida. Sua figura é morena, fala com um francês peculiar que a situa como provinda do Canadá, se chama Faustine e aparentemente está sendo cortejada por outros além do fugitivo protagonista. Ao mesmo tempo em que sua paixão pela desconhecida se torna um fato ineludível, o protagonista percebe estranhas mutações no seu ambiente. A casa que antes se encontrava em ruínas é, por momentos, vista e sentida como plenamente restaurada. Na sala de estar, peixes que jazem mortos num fundo de aquário abandonado navegam incólumes numa água translúcida. Os personagens reunidos manifestam comportamentos bizarros . Saem para dançar em pleno temporal, mergulham numa piscina que momentos antes era refúgio de insetos e folhas mortas. Perdendo o temor de ser visto, nosso protagonista se adentra na casa num momento crucial onde todos os amigos do anfitrião Morel se encontram reunidos. Nesse instante, Morel lhes revela que durante a totalidade daquela semana estivera fotografando-os. Ao assombro de alguns se soma à indignação de outros e, sobretudo, paira uma inquietude sobre a natureza desse registro maquínico. Um personagem lembra a estranha doença que arrebatou um dos fotografados por Morel.
Morel projetara uma máquina de realidade virtual. Comandada pelos fluxos da maré que acionaria sua projeção, a máquina de Morel consistia num aparato registrador que, ao longo da semana da estado dos amigos na ilha, gravara, qual um olho omniprescente, todos os gestos, acões, objetos, seres e circunstâncias do real. Não só a máquina era capaz de gravar como uma filmadora imagens totais como era também capaz de reproduzir sensorialmente a concretitude do real. Todos os seres captados e reduplicados pela máquina fagocitariam seus corpos biológicos em prol da imagem virtual. A máquina vampirizava seus replicantes. Depois de serem registrados, os protagonistas desenvolviam uma doença degenerativa, eram carcomidos como se fossem vítimas de raios radioativos. Morriam. Deixavam , entretanto, suas imagens virtuais como almas no paraíso eterno. Almas virtuais que não tinham a liberdade de ação, nem a possibilidade de alterarem o transcurso repetitivo dos seus registros. A máquina de Morel não criava cyborgs, nem propriamente engendrava simulacros se compreendermos o simulacro como uma cópia de algo que nunca existiu.(5) A máquina de Morel exterminava seres reais para criar suas imagens virtuais. A criação da imagem virtual era incompatível com a preservação do corpo biológico. O que nosso narrador protagonista avistara na ilha deserta fora, dependendo dos fluxos da maré, a encenação desbarratada dos diversos episódios que ocorreram durante aquela semana específica na vida daquelas pessoas. Eternizadas na sua banalidade de fim de semana de férias. Jogando o mesmo fantasmagórico jogo de tênis, repetindo a mesma conversa, olhando o mesmo pôr do sol.
No seu amor por Faustine, nosso narrador protagonista não podia vislumbrar a interioridade de sua amada, não tinha meios de interceptá-la fisicamente, sequer conseguia obter a mínima reciprocidade de uma troca de olhares. Tinha por ela o que literalmente se poderia denominar como sendo um amor platônico: a paixão pela imagem do ideal. Tal qual Petrarca ou Dante almejando talhar versos eternos para Laura ou Beatrice, busca fabricar seu próprio enredo de amor eterno. Para tanto, escolhe ser registrado pela máquina e traça a sua emulação posicionando-se de forma que aparentasse que a imagem virtual de Faustine efetivamente dialogava com sua própria figura já virtualizada. Instaura na máquina de reduplicação total do real efetivada por Morel, o elemento de sua própria ficção amorosa. Se a sua imagem virtual junto à Faustine é um registro do eterno que não pode ser abalizada por ninguém na medida em que se dá no cenário de uma ilha deserta onde somente a natureza perdura, a narrativa que lemos sobre sua transmutação em persona virtual constitui efetivamente o seu testamento público.
Na Invenção de Morel, o amor -paixão não se realiza enquanto experiência erótica, nem mesmo enquanto comunicação recíproca. A paixão do narrador-protagonista por Faustine é uma paixão pelo ideal transmutado em imagem e aparência. O virtual acoberta o real, mas o contrário não se aplica. O real não pode penetrar no virtual justamente porque o virtual é uma ilusão materializada que não obedece aos registros de espaço-tempo que fabricam o real e as vicissitudes das narrativas da história que invencionam nossa experiência. Entretanto, nas narrativas recentes de ficção científica tais como o romance Neuromancer ou o filme Blade runner, a distinção entre real e virtual torna-se praticamente impossível. A tecnologia permeia a totalidade da cultura erodindo as fronteiras entre natureza e artifício. A técnica fabrica androides assim como possibilita a transmutação do corpo humano biológico no corpo híbrido do cyborg homem-máquina. As cidades, por sua vez, são interceptadas pela tecnologia . Uma tecnologia da vigilância no caso de Blade runner e uma tecnologia da virtualidade do ciber espaço no caso de Neuromancer. Em ambos os casos, o espaço urbano é distópico, fragmentário e carente de epifanias.
O esvaziamento do espaço público detalhado por Sennett na transição do século XVIII ao século XIX, assume, na ficção do final do século XX variadas perspectivas que ora tratam de recobrar sentido na vasta malha urbana das cidades descentradas, ora retratam o urbano como distopia que é cancelada em prol de refúgios personalizados. (6)
Na grande cidade do século XIX, o embate entre indivíduo e massa se coordenava no limites físicos do território urbano. Ruas, pracas, cafés, parques eram locais de visiblidade por onde transitavam pedestres.
A invenção do automóvel ocasiona uma releitura do contexto urbano na medida em que a cidade será progressivamente projetada para acomodar o fluxo de veículos ao invés de possibilitar a flânerie de pedestres. O rádio, o telefone e posteriormente a televisão intensificam a desterritorialização urbana na medida em que inauguram meios de comunicação que já não dependem do espaço físico para serem acionados.
O advento da Internet somente intensifica a desterritorialização urbana na medida em que a cidade virtual se sobrepõe `a cidade real. A Internet também inaugura uma forma diversa de simultaneidade comunicativa. Qualquer indivíduo munido do seu computador e de seu modem pode transcender os limites físicos do seu contorno urbano. Diversamente do telefone que permite somente o fluxo de voz como comunicação que transcende os espaços físicos, a tela do computador é também um mundo visual de imagens e escrituras. Um mundo que possibilita a interatividade de diálogos, imaginários, identidades. Existem cidades virtuais com bibliotecas, praças, lojas onde o usuário retido no seu espaço real pode praticar sua flânerie escolhendo até, na configuração que lhe interessar, seu alter -ego na tela. Na navegação do espaço virtual, os usuários podem decidir ingressar em sites especializados e dialogar com pessoas que correspondem diretamente aos seus interesses específicos. Na medida em que as grandes cidades são percebidas como ameaçadoras e inabarcáveis e no momento em que a figura do outro desconhecido se impõe como perigo de contágio e ameaça de violência, a Internet vem a constituir um refúgio comunicativo. Refúgio, expansão do mundo, e ao mesmo tempo locus de especializações, a Internet nos coloca diante de uma geografia indefinida, um "elsewhere" onde as identidades adquirem uma plasticidade inusitada.
O telefone realiza a desconexão entre presença física e fala, mas na fala existe um feixe de inflexões culturais que revelam a idade, região geográfica, grau de instrução de quem fala. Entretanto, permanece desconhecida a figura física dos interlocutores. Esse anonimato da figura física é o nexo do conto "O gravador", de Rubem Fonseca. Uma dona de casa infeliz e um homem paralítico tecem uma relação amorosa através de telefonemas que ele obssesivamente grava. Em nenhum momento, o homem revela para sua interlocutora sua condição física real. Na montagem amorosa entre ambos , transparece a carência de afetos, o desejo de comunicação, a vontade de serem amados. O conto narrado ora pela voz do homem paralítico, ora pela voz da dona de casa, somente permite ao leitor intuir os estados físicas-mentais de ambos protagonistas. Após confissões e aproximações, ela finalmente decide ir além da conversa telefônica, abandonar sua condição de mulher mal casada e enfrentar o desafio da verdadeira paixão . Marcam um encontro na praça. O conto termina com a desolação da dona de casa que não entrevê o homem ideal que fabricara na figura real de Jorge: "Jorge não apareceu.Uma chuvinha fina caía quando cheguei, mas não podia ser esse o motivo. A chuva nem dava para molhar, havia mesmo na praca uma babá com duas crianças e um paralítico numa cadeira de rodas, sendo empurrado por seu empregado. Jorge não apareceu. " (7)
No diálogo pela Internet, os interlocutores podem eventualmente colocar em circulação imagens de suas pessoas. Mas tanto as imagens como os próprios diálogos narrados não tem porque corresponder a uma identidade fixa . Numa época em que cada vez mais somos fotografados , registrados em carteiras de identidade, passaportes, vasculhados por aparelhos médicos, radiografados , a Internet instaura uma zona ambígua de identidades. Se nossas noções sobre a identidade estão crescentemente fluídas, se negociamos a idéia de sermos criaturas fraccionadas e inventadas, se o conceito do sujeito único desaparece sobre a possiblidade múltipla de vários inventórios, as marcas do social ainda estão pautadas sobre noções de agenciamento, responsabilidades, deveres e direitos centradas na noção de um sujeito . A entrada da Internet no cotidiano de milhares de pessoas possibilita diálogos entre seres que somente se conhecem através daquilo que revelam no dispositivo da tela. As marcas da auto-representação podem ser as mais variadas. Abundam na Internet homepages de artistas virtuais que, como Natasha Vita More, estilizam seus corpos e invencionam novas identidades mostrando-as na tela virtual. São seres esculpidos no artifício da deliberação, pessoas que estilizam suas auto-representações e utilizam o computador para potencializar essa fabricação. Mas há ainda o caso mais ambíguos de pessoas que constroem identidades alternativas como se essas fossem criaturas reais. (8)
Nas pesquisas sobre os usuários da Internet no Brasil reunidas pela pesquisadora Ana Maria Nicolaci da Costa no livro, Na malha da rede, as respostas de vários navegadores apontam para o aspecto subjetivo dessa comunicação. A descorporificação é muitas vezes interpretada como uma potencialização do conhecimento, conforme as palavras de um usuário:
" No ciberespaço, conhecemos o outro não pela sua aparência física, pelo que parece ser externamente, mas, ao contrário, pelo que assume ser em sua essência. A personalidade interior da pessoa, seu jeito de ser, visão do mundo e particularidades, nesta inversão tecnomoderna, são mais que evidenciadas do que o corpo físico. Ao contrário, portanto, de como estamos habituados culturalmente, no mundo real, onde as aparências são tão valorizadas....A Internet apresenta uma nova ( e poderosa!) capacidade de explorar facilmente o interior do próximo, sem grandes riscos. E conhecendo melhor a essência dos outros, estaremos também conhecendo um pouco mais de nós mesmos. " (9) .
Há nessa equiparação entre representação de ser e a realidade do ser deslizes tal como evidenciado na análise de uma usuária:" Eu falo que a gente tem dois tipos de pessoa lá na Internet. Uma é aquela pessoa que cria uma personalidade, que é a personalidade que aparece lá. Ele tipo assim, criou um personagem. Aí tem muito a ver, se você olhar, meio que pelo nome que ela escolheu para usar, já vai mostrando um pouco dos traços. E outros que são a mesma coisa que eles são na vida real. Eles estão ali e usam aquilo só como veículo , pra você conhecer gente de lugares diferentes e tal. Mas a maioria do pessoal que eu conheci era essa história de teatrinho. Faziam um teatrinho que não tinha nada a ver com eles, na verdade." (10) Se na primeira fala tinhámos a noção de que as aparências e a realidade do corpo interceptavam uma comunicação mais profunda porque colocavam em pauta critérios sociais de estética e classe que não condiziam com a "interioridade" das pessoas, na segunda fala, a descorporificação dá margem à ficcionalização de seres imaginários. Na primeira afirmação, há uma crença na "realidade" de um sujeito profundo que , entretanto, já se encontra fraccionado entre aparência e ser. No segundo, há também a crença num sujeito real mas os códigos abalizadores desse real são retidos na imagem social e corporal desse ser. O que torna complexa essas indagações é a noção de "realidade" como se essa fosse única e não um feixe de construções entre os comunicantes. Com isso não negligencio o aspecto de deliberação ficcional dos usuários que criam personalidades teatrais . Somente ressalto que as noções de "sinceridade" e "autenticidade" nem sempre garantizam uma comunicação mútua pois o próprio uso da máscara ficcional pode, inclusive, impulsionar uma revelação mais profunda. (11) Construímos imagens e interpretações do nosso ser assim como os outros fazem de nós e de si mesmos. Há ruído e deslizes nessas interfaces interpretativas. Há virtualidade de invenções porque nem somos sujeitos estanques , nem nossa auto-representação necessariamente se coaduna com a dos outros. Em outras palavras, ao possibilitar uma comunicação descorporificada, as relações na Internet tendem a aguçar uma discursividade de representações que atiçam a fabricação de sujetividades. Nas diversas histórias de amor iniciadas pela Internet existem aquelas que permanecem seladas no virtualidade do ciberespaço sem um desdobramento no espaço real e outras que, quando transportadas para o terreno dos encontros face-à-face, criaram complementaridades ou desjunções. Entretanto, mesmo nas histórias que se limitam a trocas eróticas-amorosas no ciberespaço existe a ambigüidade da fantasia que incide no território do real. Até nas comunicações mais prosaicas, os diálogos descorporificados da Internet colocam em evidência os discursos que utilizamos na nossa fabricação do real.
A novidade do virtual tecnológico, entretanto, não oblitera uma longa e prévia história da virtualidade expressa de forma particularmente significativa na literatura. Os diálogos transcritos na Internet nos remetem a forma de correspondência mais antiga que é a troca epistolar. Se atendermos ao romance célebre de Laclos, As relações perigosas ( 1782) vemos como a correspondência amorosa através da palavra escrita suscita as mais diversas estratégias de auto-representação e os mais variados recursos de mascaramento.(12) Na Internet é possível dialogar com vários interlocutores simultaneamente , algo que é impensável na carta escrita . Entretanto, a palavra escrita assume aqui o mesmo papel. Em As relações perigosas, o Conde de Valmont tecia seus artifícios de sedução e persuasão através da retórica passional. Inclusive, a moral da história desse Dom Juan epistolário é a transmutação da palavra hipócrita em sinceridade passional. Ao utilizar a retórica romântica do amor sincero com Madame de Tourvel termina por sentir o que antes falseara por deleite de poder, veleidade narcisica e desejo erótico. A sedução, a persuação e o desejo são obtidos pela fabricação de personalidades interativas. O diálogo no chat e pelo e-mail retoma a potencialidade da palavra escrita e revela o aspecto virtual já existente nesse imaginário.
A cidade virtual não cancela mas modifica a existência da cidade real; o sujeito descorporificado na Internet possui seu desdobramento físico num espaço concreto. A palavra escrita na tela e o salão verbal dos chats não aniquila o contato direto e o diálogo face-à-face. O que vemos, nesse final de século, são as potencialidades do virtual informando-nos cada vez mais sobre o aspecto construído das nossas realidades. Flâneurs do ciber espaço, cyborgs modificados pela técnica, somos também cidadãos anônimos, consumidores globalizados e ao mesmo tempo moradores de um bairro, membros de uma família, torcedores de um clube. Transitamos num mundo de interações onde todavia buscamos formas de agenciamento na espessura de identidades cada vez mais complexas. No bonde, pelo telefone, através da Internet, as narrativas de amor interceptadas pela técnica são particularmente expressivas porque transmitem essa vontade de comunicação com um outro tão real,virtual e enigmático quanto nossas próprias estratégias de ser.
Notas
1.As Flores do Mal, Charles Baudelaire, tradução de Ivan Junqueira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1985, p. 345
2. "Poema de sete faces", Carlos Drummond de Andrade, Antologia poética, Rio de Janeiro, José olympio, 1980, p. 3
3.Lima Barreto, Diário Intimo, organizado e compilado por Francisco de Assis Barbosa, São Paulo, Editora Brasiliense, 1956. p. 73
4. Ver Adolfo Bioy Casares, La invención de Morel, Madrid, Ediciones Cátedra, 1984
5. Ver análise de Jean Baudrillard no seu conhecido estudo La Precession des Simulacres, Paris Editions Galilée, 1978
6. Ver o livro clássico de Richard Sennett, O declínio do homem público, São Paulo, Companhia das Letras, 1988
7. Rubem Fonseca, Contos Reunidos, Companhia das Letras, São Paulo, 1994, p. 116
8. Em seu livro The War of Desire and Technology at the Close of the Mechanical Age, Cambridge, The MIT Press, 1996, Alluquere Rosanne Stone relata o episódio fascinante de um psquiatra norte-americano que escolheu um alter ego para se comunicar com outros usuários da Internet. Seu alter ego, Julie, uma mulher paralítica com severas deformações faciais devido a um acidente de carro, obteve estrondoso sucesso na Internet. Fez tantos amigos e dispensou tantos conselhos que finalmente o psquiatra não pôde reter o desejo dos usuários-amigos que queriam conhecê-la pessoalmente. Quando souberam que Julie era uma ficção inventada por um psquiatra masculina, as amigas de Julie se sentiram profundamente enganadas. Tinham depositado a crença de que, através deste meio virtual, estavam de fato se correpondendo com uma pessoa física real que era idêntica ao personagem que aparecia na tela.
9.Ver Ana Maria Nicolaci da Costa, Na malha da rede: os impactos íntimos da internet, Editora Campus, 1998, p. 221
10. Ibid, p. 256
11. Ver o livro de Lionel Trilling sobre os conceitos de sinceridade e autenticidade em Sincerity and Authenticity, Cambridge, Harvard University Press, 1971
12. Ver Choderlos de Laclos, As relações perigosas, Tradução de Carlos Drummond de Andrade, Ediouro.
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